Palestra · Adesivos e Selantes
Nosso gerente técnico, Vinicius Neves, falou no Painel Adesivos & Selantes sobre mecanismos de adesão, critérios de seleção de resinas e por que a ficha técnica sozinha não basta. O vídeo completo está aqui, com um resumo do que foi apresentado.
A MatriKem participou do Painel Adesivos & Selantes da FEIPLAR Composites & FEIPUR 2026, uma das principais feiras de compósitos e poliuretanos da América Latina. Quem subiu ao palco foi Vinicius Neves, sócio fundador e gerente técnico de materiais da MatriKem, engenheiro de materiais com ênfase em polímeros e aluno especial na USP.
O tema: Seleção técnica de resinas para adesivos: mecanismos de adesão e a contribuição do fornecedor no desenvolvimento de formulações. São 18 minutos que partem de um problema que chega toda semana ao nosso suporte técnico e terminam com uma pergunta que vale a pena levar para a bancada.
A palestra abre com um caso real. Um cliente liga com um problema de adesão: o adesivo descolou. A primeira pergunta que fazemos é qual é a base polimérica. E muitas vezes o cliente não sabe. Nesse caso era um PU em sistema solvente, e nem o solvente estava identificado. O trabalho começou do zero, entendendo o que estava em uso e o que a aplicação exigia.
Daí vem uma posição que o Vinicius defende na palestra e que orienta o nosso atendimento: é melhor levar o cliente para o vocabulário técnico do que simplificar a ponto de deixá-lo sem entender o próprio processo.
A revisão de mecanismos parte da definição clássica dos handbooks de adesão: a ciência do adesivo é a junção de física, química e mecânica. Entre o adesivo e o substrato existe uma zona de interação, e é ali que a maior parte dos problemas nasce.
Para aderir, o adesivo precisa se espalhar. Um ângulo de contato alto significa que o líquido tende a formar uma gota esférica, a forma de menor área por volume. Um ângulo baixo significa que ele se espalha, ocupa mais área e cria mais pontos de contato com o substrato.
O que define esse comportamento é a energia superficial. Os átomos da superfície não completam todas as suas ligações e ficam disponíveis para interagir. Quando a superfície já é muito estável, como no PTFE (Teflon), esse potencial de interação praticamente desaparece.
Duas consequências práticas aparecem na palestra:
Para um exemplo concreto de ligação química na interface, veja nosso artigo sobre por que a resina vinílica adere ao metal.
A segunda parte traz a ferramenta da engenharia de materiais para escolher uma resina. O ponto de partida é o tetraedro clássico, que liga estrutura, propriedades, processamento e desempenho, com a caracterização no centro. É a caracterização que permite, por métodos analíticos, estimar a composição de um adesivo que o cliente traz sem ficha.
Sobre essa base entra a metodologia de seleção de Ashby e o índice de mérito. O Vinicius usou uma analogia simples: escolher um apartamento para alugar. Perto do metrô vale dois pontos, preço bom vale um. Na formulação é igual. Você define:
O resultado aponta a família de materiais mais adequada, e às vezes não é a que o cliente esperava.
O quadro comparativo da palestra mostra, de forma geral, o PU com flexibilidade excelente, resistência térmica elevada e adesão a uma variedade grande de substratos. As vinílicas, uma família que vai da cola branca de PVA ao plastisol de serigrafia, aparecem com flexibilidade moderada.
Se o PU vai tão bem em tantas superfícies, por que acrílicas e vinílicas continuam firmes no mercado? Porque a escolha não é decidida por uma propriedade isolada. Ela sai do índice de mérito: processo, velocidade de produção, substrato e restrições pesam tanto quanto a força de adesão.
Esse é um dos pontos centrais da palestra. Um cliente chega com a ficha técnica de uma resina importada e pede um substituto. As fichas batem: viscosidade, teor de sólidos, tudo igual. E mesmo assim o produto não é igual.
As fichas técnicas costumam deixar de fora o que define o desempenho em linha: distribuição de massa molar, curvas de reologia sob cisalhamento, migração de plastificantes, compatibilidade com aditivos secundários. O exemplo que o Vinicius usou foi o emulsificante residual que sobra da síntese no reator. Duas resinas "equivalentes", uma com emulsificante residual baixo e outra com alto, vão se comportar de forma diferente na adesão, porque parte da química de superfície já está ocupada pelo resíduo do processo.
A palestra fecha defendendo que o fornecedor tem um papel relevante em toda a cadeia de desenvolvimento, e não só na entrega da matéria-prima. Na MatriKem, decidimos acompanhar o cliente em todas as etapas:
Cada fornecedor tende a defender a família que vende. O Vinicius propõe o contrário: olhar para a necessidade real do cliente, mesmo quando o índice de mérito aponta para uma família de materiais que não está no nosso estoque. E isso exige sinceridade dos dois lados. Tem cliente que não abre o jogo no início, e o projeto só anda quando fornecedor e cliente compartilham as informações de verdade.
Nas palavras dele, formulação é arte e ciência, mas pertence a todos. Como na cozinha, se aprende testando, errando e acertando, e nada é mais prático do que uma boa teoria.
No meio da palestra fica uma pergunta para a plateia. Se o PU tem resistência mecânica maior e adere a mais substratos, por que a cartela de remédio usa adesivo vinílico, a ponto de a substituição nem ser discutida?
A resposta veio no fim: velocidade de processamento e afinidade com o substrato. O blister já é vinílico, então a adesão é natural, e o sistema ainda entrega a barreira de que a embalagem precisa. O PU teria resistência mecânica muito alta, mas precisa de tempo de reticulação, e uma linha de termosselagem não tem esse tempo. É o índice de mérito na prática.
Fale com nosso especialista. A gente começa entendendo a sua aplicação antes de indicar qualquer produto.